Em 14 de março de 1914, nasceu Abdias do Nascimento



A luta pelo resgate de uma cidadania afrodescendente independente de “clichês brasileiros”, tem, no dia de hoje, uma marca histórica, pois em igual data, na cidade de Franca, estado de São Paulo, no ano da graça de 1914, nasceu Abdias do Nascimento. Filho de Georgina Ferreira do Nascimento (conhecida como Dona Josina), doceira e ama de leite, e de José Ferreira do Nascimento, sapateiro e violonista,[6] Abdias do Nascimento era neto de mulheres escravizadas. A avó materna, Francelina, foi internada no famigerado asilo de Juquery e sofreu sérias consequências dos maus tratos lá recebidos.[7] A avó paterna, Ismênia, nascida na África, foi estuprada por um português. Por isso o pai de Abdias carregou, durante seus 95 anos de vida, a dor de ser um filho 'natural', isto é, de não ter sido reconhecido pelo pai.

Abdias foi poeta, ator, dramaturgo, artista plástico, professor universitáriopolítico e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras brasileiras.

Considerado um dos maiores expoentes da cultura negra e dos direitos humanos no Brasil e no mundo, foi oficialmente indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 2010. Fundou entidades pioneiras como o Teatro Experimental do Negro (TEN), o Museu da Arte Negra (MAN) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO). Foi um idealizador do Memorial Zumbi e do Movimento Negro Unificado (MNU) e atuou em movimentos nacionais e internacionais como a Frente Negra Brasileira, a Negritude e o Pan-Africanismo

Quando jovem, durante quatro a cinco meses em 1936, foi membro da Ação Integralista Brasileira,[3] onde atuou como jornalista, tendo se desligado no início de 1937 por se opor a "um segmento sistematicamente racista contra os negros" dentro do movimento. 

Atuou no antigo Partido Trabalhista Brasileiro (1945-65) e foi fundador do Partido Democrático Trabalhista em 1981, chegando a ser vice-presidente da legenda à qual permaneceu filiado até sua morte. 

Ele foi professor emérito na Universidade Estadual de Nova Iorque em Buffalo, campus de Buffalo, onde, durante seu exílio em face do regime militar, foi professor titular por dez anos. Nascimento atuou como professor visitante na Escola de Artes Dramáticas da Universidade Yale. Convidado pelo Fórum das Humanidades da Universidade Wesleyan, também nos Estados Unidos, ele participou, também na condição de professor visitante, junto a alguns dos mais destacados intelectuais da época, do Seminário "A Humanidade em Revolta". Foi professor convidado do Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ifé, em Ifé, Nigéria. Voltando do exílio elegeu-se deputado federal e senador da República, tendo sido ainda Secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Recomendo a leitura da obra “ Quilombismo: um conceito científico histórico-social” escrito por esse expoente maravilhoso da resistência ao racismo.

Na proposta do “Quilombismo”, Abdias denuncia, de pronto, a ilegitimidade do Estado, visto por ele com uma estrutura perversa organizado com vistas a entronização espúria de um segmento elitista, uma elite que tem sido a cristalização político-social dos interesses exclusivos, “cuja aspiração é atingir o status ário-europeu em estética racial, em padrão de cultura e civilização…”

No contraponto, em suplementação a essa constatação acima, ele adiciona considerações sobre a inadequação perversamente orquestrada, de uma conjuntura internacional que eleva a uma posição pivotal uma ciência falaciosa, na medida em que levanta constatações espúrias, carentes de comprovação técnica, ao nível de vereditos. Afinal, Abdias pergunta: “Como poderiam as ciências humanas, históricas – etnologia, economia, história, antropologia, sociologia, psicologia e outras – nascidas, cultivadas e definidas para povos e contextos socioeconômicos diferentes, prestar útil e

eficaz colaboração ao conhecimento do negro, sua realidade existencial, seus problemas, suas aspirações e projetos? Seria uma ciência social elaborada na Europa ou nos Estados Unidos tão universal em sua aplicação? Os povos negros conhecem na própria carne a falaciosidade do universalismo e da isenção dessa ciência".

O negro tragou até a última gota os venenos da submissão imposta pelo escravismo, perpetuada pela estrutura do racismo psicossocial-cultural que se mantém ativo até os dias de hoje. 

A educação honesta do cidadão negro tem como obstáculos quase intransponíveis no seu caminho alguns desafios: assumir uma abordagem honesta da sua história aborígene africana e seguir pelo ensino-aprendizagem de uma conjuntura eclética de valores, dentre os quais a justiça, a igualdade, o direito civil, o respeito à liberdade de expressão e à sua melhor capacidade de contribuição para a consolidação de uma sociedade cuja natureza intrínseca torne impossível o racismo. 

 

Referências:

1.     Abdias do Nascimento; https://pt.wikipedia.org/wiki/Abdias_do_Nascimento (10/12/21)

2.    O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. 2. ed. Brasília / Rio de Janeiro: Fundação Palmares / OR Editor Produtor, 2002, p. 269-274). Texto para download

3.    Oliveira, Lorena Silva; O QUILOMBISMO: UMA EXPRESSÃO DA FILOSOFIA POLÍTICA AFROPERSPECTIVISTA; file:///C:/Users/home%20office/Downloads/lsardeiro-9-o-quilombismo-uma-expressao-da-filosofia-politica-afroperspectivista.pdf  (10/12/21)

4.     Imagem:https://pt.wikipedia.org/wiki/Abdias_do_Nascimento (10/12/21)

 


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