Leituras e Construção de uma cidadania afrodescendente
Pedindo o Favor de Exu, para dar início a uma série
de abordagens, que julgo procedentes na direção da formação da cidadania
afrodescendente.
Lembro que durante a minha infância, um tempo
de pobreza material normalizada pelo racismo, sonhei em um dia me tornar um
advogado.
Era com eu via a imagem de alguém que se tornou
repositório do respeito de todos os membros da sociedade de entono.
Ao revelar esse projeto para as pessoas mais
próximas era brindado com o descrédito ou melhor, com a desconfiança de que não
estivesse “falando sério”.
No primeiro momento, provavelmente, pela
inexperiência característica da tenra idade, não percebia explicitamente essa
reação nas pessoas e seguia sonhando.
Ao terminar meus estudos secundários, já
testado pelo racismo explicito e ao demonstrar que prosseguia sonhando com meu
projeto de ser alguém a quem a sociedade prestasse respeito para além da minha pele preta, era paulatinamente escrutinado sobre o que faria em seguida,
visto que para a sociedade baiana da época, o nível técnico para um jovem negro
já se mostrava progresso o suficiente. Eu queria mais, e mudara a minha meta de
alcançar um grau em direito, para a meta de alcançar uma posição na área da ciência, mais precisamente a área da física dentro dessa
sociedade. Mas, de toda sorte, estava explicita minha a insistência na execução do projeto de
alcance de uma posição concomitante com uma formação de nível superior.
Ninguém acreditava que pudesse estar falando
sério.
Era década de 1970: vocês sabem, …vigência da Ditadura
militar, de lemas "transformadores" da nação, tempo de frases de efeito do tipo, “Brasil um país
que vai p’ra frente...”, uma “democracia racial”, esses tipos de coisas, em
vogas avassaladoras. Eu ouvia gente preta falando em “Deus, Pátria e Família”, e esses
tipos de coisas...
Isso por um lado, enquanto que por outro, minha
família nuclear, na busca por uma identificação com o projeto Brasil de
sociedade, de tudo que é tipo de esforço para me manter afastado do Candomblé, tentaram em uma média de 150% de recursos demonizadores (pensáveis e até inimagináveis) da religião dos Orixás, Voduns,
Baquices. Mas nem assim conseguiram me demover do meu propósito de servir a Orixá e Vodun e é por isso que hoje sou Mawo da Casa de Azonsu, com
muito orgulho e com muito amor.
Foi por conta da minha interação com o Candomblé que uma série de eventos ocorreram se conjuminando como uma ressignificação das Forças que me trouxeram para onde estou hoje e agora, de onde tomo a inciativa de me comunicar com vocês. Um pesquisador branco norte-americano, o Dale Gradn, veio uma vez me entrevistar sobre o Candomblé: eu já falava inglês, por conta da minha insistência na formação superior. Foi ele que me trouxe algumas leituras que mudaram a minha vida, no sentido de reforçar em mim as convicções desenvolvidas ao longo da luta contra a perversidade de um sistema que reserva ao povo preto, a entrada de serviço pelo quintal da desqualificação, mediante a aplicação prática um diferencial alegadamente justificador nesse país Brasil, que é a minha cor de pele. Nessa mesma época, ele me presenteou com títulos e autores negros norte-americanos, como Booker T. Washington, Carter G. Woodson, WEB Du Bois, e muitos outros.
A partir da próxima
publicação estarei trazendo títulos e comentários sobre obras literárias e
trabalhos afins que considero incontornáveis para a formação da cidadania
afrodescendente.
Até a próxima oportunidade!
Imagem: Foto do Mawo Adelson em uma cerimonia religiosa em 2021
Parabéns!
ResponderExcluirA luta só vai acabar se uma vela, luz, apagar! Você é uma das luzes! E quanto mais luzes existirem dominando o discurso superior, mas se chega lá! Vejo isso como exigência social!
Não vou te dizer que sou preto, índio... para ti agradar, mas olhe para mim, me conheça e chegue a conclusão que quiseres! Mas tenha certeza de que, em algum desagrado ou falta de compreensão de qualquer natureza, ignorância etc, sou extremamente flexível, como um bambum, para compreender, discordar, aceitar e o principalmente, mudar! Nunca existirá ódio, talvez um pequeno desconforto por ter que sair de uma zona de conforto! Mas sairemos juntos e uma nova compreensão sobre mesmo surgirá!
Forte abraço e verdadeira estima e admiração!
P.S. Somos todos irmãos, no mesmo mar, Terra, mas cada um em seu barco, cheios de problemas emocionais sociais! Para colocar todos em um único navio é o problema! A ignorância atrapalha!
Parabéns Mawo, tenho acompanhado de perto a sua luta, que também é minha, e creia estaremos sempre juntos nesta demanda. Axé.
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